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28/10/09

Inspiração e consagração


Apesar de estar muito longe de ser um artista, arrisco afirmar que uma obra de arte se constrói a partir de inspiração e consagração. Inspiração é o dom que vem do alto, é talento puro, criatividade que não se aprende ou se imita; é o insight, luz que transforma as trevas da mesmice, é a habilidade de improvisar. Inspiração é o dom que o criador deu ao ser humano de construir algo belo e digno de admiração. É a capacidade de transformar sucata em artesanato, de visualizar uma escultura em uma pedra bruta, de fazer versos e poemas de palavras que nada dizem em si mesmas. Por sua vez, consagração é trabalho duro e suor, dedicação e sacerdócio, renuncia e apego. Consagração é a sustentação da inspiração. Por trás de tudo que, legitimamente, se pode chamar de arte está uma história de dedicação e determinação. A inspiração é uma matéria bruta que precisa ser lapidada pela consagração. Idéias brilhantes sem trabalho duro é combustível para a frustração, decepção e presunção.

Dever-nos-ia impressionar que o primeiro retrato de Deus nas Escrituras é o de criador, artista e artesão. O bara’ (Ele criou) de Deus fez que o visível viesse a existir das coisas que não aparecem (Hb. 11:3), pela primeira vez a centelha da inspiração aflora no tempo e espaço. Além disso, cada etapa da criação é um Ki- tôbh (que bom), sua conclusão faz romper uma exclamação de admiração e realização: Hinneh tôbh me’odh (Veja, olha!!! É muito bom)! No entanto, o relato da criação não aponta apenas para a inspiração e beleza, mas para um esforço árduo! Talvez alguns se escandalizem com esta possibilidade, pois entendem que Deus jamais precisa empreender esforços já que é todo-poderoso. Entretanto, devíamos prestar atenção no fato de que a narrativa da criação termina com Deus vivenciando o shabhat (cessou/descansou). O estudioso Hans Walter Wolff sustenta que a idéia de descanso referente ao sétimo dia é acentuada à luz de Ex. 20:11 com o verbo vayyanah [imperfeito do verbo nûah] traduzido por descansou e Ex. 31:17 em que se acrescenta vayinnaphash [imperfeito do verbo naphash] que tem o sentido de “respirou aliviado”. Segundo o autor, o “repouso de Deus pode significar duas coisas: 1) Ele pode repousar, pois toda a obra, tudo o que o ser humano precisa está consumado; e 2) a ampliação “Ele respirou”, “Ele se refez”, ainda insinua, com um leve antropomorfismo: Ele precisa descansar, esgotou-se em sua obra da criação. Isto se pode entender plenamente apenas no “esgotamento” do crucificado: tetélestai, “está consumando” (Jo. 19:30).” (Wolff, 2007, p.215). Portanto, a meu ver, se bara’, que os teólogos entendem como criar da nada, é a melhor definição de inspiração, confirmada por Ki- tôbh, shabhat é a melhor definição para consagração. Assim, a criação de Deus resume a primeira grande expressão de beleza e esforço, de inspiração e consagração, que encontra sua plenitude na beleza do amor e entrega de Cristo na cruz!

Por isso, entendo que a betsalmenû (nossa imagem) e kidhemûtenû (nossa semelhança) de Deus em nós nos desafiam a fazer nosso trabalho como artistas e artesões, pois somente assim nos tornamos digno de nossa vocação e vivenciamos o significado pleno de fazer tudo para a glória D’Ele. Por esta razão, os missionários, os pregadores, professores, evangelistas, músicos, ou seja, quem constrói e serve ao criador, precisa conjugar inspiração e consagração. O senhor nos chamou para edificarmos comunidades de artistas e artesões, Seu maior projeto é construir vidas. A vida e obra de Jesus é modelo que encarna este propósito e projeto de Deus, nele unção e missão encontram expressão e equilíbrio. Nas palavras do apóstolo, inspirado e consagrado, Deus nos predestinou “a fim de sermos para louvor da sua glória....” (Ef.1: 6,12,14).

[ O prof. Israel Sifoleli leciona Teologia Antigo Testamento e Hebraico na FLAM]

12/02/09

O humor de Jesus


Alguns pastores e pregadores confundem a responsabilidade de “expor a bíblia com seriedade” e “expor a bíblia sério” e alegam que o humor é uma forma inapropriada para uma pessoa falar de Deus e do Seu Reino, concluindo que seria desrespeitoso ou até blasfemador comunicar o evangelho de uma forma humorada.

Este argumento seria incoerente com o método que Jesus às vezes optou usar para falar do céu e do seu reino. O que estou querendo dizer é que Jesus usava muito humor para pregar.

Mas por que muitos de nós não vemos de cara o humor de Jesus?

Tirando o caso dos cearenses, o humor nunca foi algo fácil de passar para frente, principalmente em forma escrita. Esta foi a dificuldade dos escritores dos evangelhos ao ouvirem as histórias de Jesus, tiveram que escrevê-las.

Já deve ter acontecido com você alguma situação muito engraçada, onde você passou mal de rir, mas pouco tempo depois, quando você foi contar para alguém, não teve nenhuma graça e a pessoa não riu um décimo do que você riu na hora do fato.

Outra dificuldade é a barreira da cultura e do tempo. Canso de ver filmes de “humor” da Europa, EUA ou Japão e não consigo ver graça nenhuma, mesmo sabendo que foram filmes de sucesso em seus países. Ou, até com alguns filmes nacionais um pouco mais antigos, sinto um humor muito ingênuo. Em se tratando do texto bíblico, houve um afastamento que dificultou a percepção do humor nas histórias de Jesus. Mas, se repararmos, veremos uma forma de humor muito clara e descontraída nas parábolas de Cristo.

Quando Jesus ia contar uma história, mesmo que o assunto fosse delicado e tenso, vemos que as histórias dele não seguem a lógica normal, sempre tem um absurdo que o ouvinte, naquela época, tomaria um susto e provavelmente daria risada. Um humorista famoso definiu o humor como algo inesperado ou inusitado que acontece no nosso dia, e nas histórias de Jesus isso estava presente o tempo todo.

Uma história humorada, geralmente, usa o recurso de exagerar as coisas ou não seguir a lógica. Assim como a piada do homem na estrada com seu carro e leu na placa: cuidado curva perigosa a esquerda! E ao vê-la ficou com medo e decidiu evitar a curva virando para a direita. É claro que nas parábolas de Jesus a intenção final não era rir, pois suas histórias não eram piadas e isso eu queria deixar bem claro, mas Ele usava o humor em praticamente todas as historias que contava para mostrar os valores do Reino.

Imagine um camponês ouvindo Jesus contar que um semeador saiu jogando semente para tudo quanto é lado, algumas caíram na estrada, outras nos espinhos, e assim vai! E logo um gritaria lá de trás da multidão: Este semeador é doido, qualquer um sabe que tem que preparar a terra e colocar a semente com cuidado na vala preparada, pois a semente é cara. Ou, um pastor de ovelha ouvir que um pastor largou noventa e nove no deserto para ir atrás de uma, e um patrão que paga o mesmo tanto para alguém que trabalha um dia ou um hora! E assim vai: a mulher que da uma festa por achar uma moeda, o filho que pede da herança do pai vivo, o leproso (Lazaro) que vai pro céu e o rico (judeu) que vai para o inferno, um reino comparado com um grão de mostarda...

No mínimo, uma risada e a atenção, Jesus conquistava do publico, pois o humor de Jesus deixava a história muito mais interessante. Está certo que alguns, principalmente os fariseus, ao entender a profundidade da história, seu sorriso se tornava raiva, mas devemos entender que, à primeira vista, os absurdos das parábolas de Jesus eram engraçados.

Não acredito que Jesus usava o humor apenas para chamar a atenção do publico, ou para a turma rir um pouco mais, ou para tornar mais interessantes suas histórias. Jesus coloca o humor de forma especial no seu ministério de ensino. Acredito que Ele usava o humor em suas histórias de uma maneira profética, a fim de mostrar os valores do reino e apontar os valores invertidos dos religiosos que o perseguiam.

O humor das parábolas de Jesus pode ser a chave hermenêutica (de interpretação) para o começo da compreensão da lição de cada uma de suas histórias. Se entrarmos na história de Jesus pelo humor desconexo aos valores que temos, fica mais fácil entender que o semeador do evangelho não precisa se preocupar com o solo (coração) que vai receber a semente, pois a tarefa dele é apenas semear independente do solo que ele “acha” que é bom, ou que o pastor do Reino é aquele que entende que cada perdido vale o todo (os 100%) no reino de Deus.

Faça o exercício de ouvir as histórias de Jesus com mais humor, e logo perceberá que as parábolas farão mais sentido, não com a realidade, mas com os valores do reino.
Precisamos levar a sério a bíblia, levar a sério a sua interpretação e com isso levar mais a sério o humor.

Marcos Botelho

Maio de 2009